Feliz Dia da Mulher?

7.3.16




Se você é mulher provavelmente em algum 8 de março já recebeu bombons, flores, cartões, mensagens nas redes sociais parabenizando-a por ser mulher. Esta é uma cena típica que acontece com todas nós nesse dia. Como se o 8 de março fosse um dia de comemoração, mas me digam uma coisa: comemoração de quê?

Comemoração por ainda não termos direitos iguais?

Por ainda sermos apontadas na rua por estarmos mostrando alguma parte do nosso corpo?

Por usar um short curto e ter o nosso caráter julgado?

Por ganharmos menos que um amigo do trabalho que desempenha a mesma função e tem o mesmo nível de escolaridade?

Porque não termos direitos sobre nosso corpo e não podemos decidir se queremos ter filho ou não?

Por sermos incapazes de ser feliz sem ter uma figura masculina ao nosso lado?

Por sermos alvos de diversos tipos de violência, desde o assédio verbal até a morte?

Por termos que esperar alguma amiga pra poder voltar pra casa, pois ir embora sozinha nem pensar. Se acontecer alguma coisa é nossa culpa, afinal:

 - quem mandou sair a essa hora sozinha, hein menina?

8 de março não é um dia de celebração por termos nascidas mulheres, mas é um dia de luta e reivindicação por direitos que nos são negados diariamente, pelo simples fato de termos nascidas MULHERES.

Isso não é um papo feminista ou anti-machista. Isso é a realidade nua, crua e cruel. É uma triste estatística que todos os dias temos que lutar pra tentar diminuir até o dia em que a igualdade de gênero seja realidade e textos como este não precise ser escrito e toda essa conversa seja só uma historia de como era a vida antigamente.

Até outubro de 2015 a CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER –LIGUE 180 recebeu 63.090 denuncias de violência contra a mulher. Desse total 67,36% das mulheres foram violentadas por homens que tinham algum vinculo afetivo com elas e 27% dos casos o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido.

Uma em cada cinco mulheres já foram espancadas pelo marido/companheiro (DataSenado 2015 – Violencia contra mulher).

3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos (Instituto Avon e Data Popular, 2014).

56% dos homens admitem que já xingou, empurrou, agrediu com palavras, deu tapa, deu soco, impediu de sair de casa, obrigou alguma mulher a fazer sexo (“Percepções do Homem sobre a Violência contra a mulher”. Data Polular/Avon, 2013).

Em 2011 o Brasil registrou 12.807 casos de estupro (dados/Sinan).

As mulheres ganham menos que os homens em todas as faixas etárias, níveis de instrução, tipo de emprego ou de empresa. No Brasil uma mulher com educação superior ganha apenas 62% do salário de um homem com a mesma escolaridade (Relatório da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico, 2016).

O assunto é atual, mas a causa é antiga. Já tivemos muitos direitos alcançados. Mas direitos que parecem tão simples ainda nos são negados. É triste viver em uma sociedade em que nem amamentar em público podemos sem receber um olhar discriminador como se tivéssemos realizando uma ação ofensiva por deixar exposto uma parte do nosso corpo. Aliás, parte esta que os homens expõem numa boa em qualquer hora e em qualquer lugar e ninguém acha feio ou imoral.  

Será que é pedir muito, se a gente quiser sair pra se exercitar sem ter que escutar nenhuma piadinha de mau gosto?

A SITUAÇÃO É A MESMA, MAS O JULGAMENTO DEPENDE DO GÊNERO

Quando acontece uma traição e foi nós que cometemos. Os xingamentos são diversos: puta, não se dar valor, pouca vergonha - Aí do marido se ele nos perdoar e não separar: gosta de ser corno mesmo. Se foi ele quem trai - Normal, coisa de homem.  Nós? Temos que ficar quietinhas e perdoar. Afinal, somos mulheres, temos que perdoar nosso marido e aceitar a traição.

Se tivermos mais de um parceiro sexual #tudoputa. Mas se for o homem ele é o FODÃO, pica da galáxia...

E quando ficamos grávida, adivinha de quem é a culpa? Ora bolas, porque não tomamos o comprimido direitinho? Porque não tomamos a pílula pós dia? Aliás porque transamos sem camisinha? Pobre homem, agora vai ter que ser “pai” porque não nos cuidamos, não tomamos as devidas providências. E se decidirmos não ter o bebê? O que acontece? - Na hora de fazer nem achou ruim, né? Mulher sem coração. Isso aí deve ter parte com o demo... Mas quando resolvemos ter o bebê a sociedade vai logo cuidando em meter o dedo na nossa cara por sermos mães solteiras - e o tal pai que de pai só tem o nome no registro (isso quando registra) vai ser só mais um homem com um filho no mundo e nenhum julgamento cairá sobre ele.

Pior do que ser refém de um pensamento e atitudes machistas por parte do homem, é ser vítima de um pensamento machista de uma mulher que é submissa de uma sociedade que acredita que o homem dita a regra e mulher tem que obedecer, que acha que mulher tem que ser plateia. A maior conquista que uma mulher pode ter é quando ela se dá conta de quão poderosa ela pode ser. Somente com o Empoderamento Feminino é que nós poderemos mudar o mundo e transformá-lo em um lugar melhor, não só para nós mulheres, mas para toda a humanidade. Quando uma mulher é empoderada não é só ela que ganha com isso. Todos que estão a sua volta ganha. O mundo ganha com isso.

Sejamos homens ou mulheres, que não sejamos cúmplices dessa violência discriminatória. Que não sejamos coniventes com essa falta de respeito. Que possamos lutar por nossos direitos, pelos direitos das nossas mães, filhas, irmãs, tias, avós, sobrinhas, primas, vizinhas.... PELOS DIREITOS DE NÓS MULHERES.

Que o real intuito do 8 de março não seja mascarado por ações banais de distribuição de flores e bombons pela hipócrita sociedade que durante os outros 364 dias nos agride, nos xinga, nos negam direitos, nos tiram direitos já adquiridos com tanta luta.

Até você terminar de ler esse texto, muitas mulheres sofrerão algum tipo de violência. Isso porque a cada dois minutos cinco mulheres são agredidas no Brasil. Segundo a ONU, 7 em cada 10 mulheres foram ou serão violentadas em algum momento da vida. São dados que nos são revelados e nos fazem refletir se o dia 8 de março é mesmo um dia para se comemorar?

Que nesse dia não nos esqueçamos das quase 130 operárias que foram cruelmente queimadas enquanto lutavam por melhores condições de trabalho e salário naquele triste dia de 1857 e das inúmeras mulheres que diariamente sofrem e lutam pelo fim da desigualdade de gênero.

Lutemos pelas Marias que todos os dias são agredidas pelos seus parceiros. Lutemos pelas Rhannas que são frequentemente violentadas por negarem uma dança. Pelas Mayaras que são mães solteiras e são apontadas pelos familiares e pela sociedade como mau exemplo. Pelas Bruninhas que tiveram suas bonecas trocadas por vassouras e pratos sujos enquanto seus irmãos brincavam de bola na rua. Pelas Andréias que trabalham iguais ao Andrés, mas recebe menos que estes...

Não queremos flores e bombons. Queremos o fim da desigualdade de gênero. Queremos ir e vir a qualquer hora usando a roupa que a gente quiser. Queremos amamentar em qualquer lugar. Queremos exercer a profissão que nos agradar. Queremos o salário que é condescende com nosso cargo e não com o nosso gênero. Queremos o fim da violência contra as mulheres, seja ela física ou verbal. Não queremos nem mais nem menos direitos que os homens, queremos DIREITOS IGUAIS.


Bárbara Bezerra e Michely Pereira



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