Um Mundo Chamado ESCAMBO POPULAR LIVRE DE RUA

25.4.17


Teatro de Rua
Roda formada pelos moradores do Bairro São Bento no 46º Escambo Popular Livre de Rua (Foto: Willi Kesle)

Imagine um mundo mágico com Reis de coroas de lata. Imagine um reino animal que discute a humanidade. Imagine um Coletivo Invisível que Quebra o Silêncio e denuncia o óbvio de uma sociedade patriarcal e opressora. Imagine bem-te-vis e Carcarás que cantam Arte e Riso. Imagine trompetes, berimbaus, tambores, pandeiros, palmas, estalar de dedos, assovios e pisadas ritmadas que anunciam a chegada de uma Bela Trupe enriquecida de cultura e aquecida pelo calor do sol humano. Imagine um mundo que cabe dentro de uma Rua, de várias ruas, de quantas ruas sua imaginação conseguir criar, até mesmo, capaz de caber dentro de um Buraco.

Esse mundo mágico que, na verdade, é real se chama TEATRO DE RUA. Ele faz parte do nosso imaginário real e habita nossas lembranças mais antigas.  Em meio a tantas possibilidades, tivemos o privilégio de nascermos em uma cidade, e em uma época, em que o TEATRO DE RUA começava a fazer parte da realidade local. Palhaços, pernas de pau, malabares, capoeira, músicas e Bumba meu boi são figuras que crescemos tendo o prazer em assistir. Sempre fomos fascinadas por esse mundo mágico. Porém, sempre nos limitamos aos espetáculos, nunca fizemos parte do teatro – apesar de que no teatro de rua a plateia é parte integrante de qualquer trupe.

Ainda dentro do mundo do TEATRO DE RUA existe o ESCAMBO POPULAR LIVRE DE RUA. Para os que não tiveram o mesmo privilégio que essas duas blogueiras, e não conhece o universo da cultura de rua, o ESCAMBO é uma troca de vivência entre grupos teatrais e a comunidade.

Nos últimos dias 21 a 23 de abril, a terra de Nhanduí recebeu o 46º ESCAMBO POLULAR LIVRE DE RUA e o 24º ESCAMBITO RAIZES. Este ano, decidimos aumentar o nosso universo para além de simplesmente assistirmos aos espetáculos e resolvemos conhecer o universo dos que fazem parte do movimento ESCAMBO. Foi uma experiência incrível e enriquecedora. E, como bem disse Pedro Vitor, integrante do grupo RUALUARTE, no auge dos seus 14 anos, “O Escambo não é para ser descrito é pra ser sentido”. A gente sentiu, e como sentimos! Mas, como nem todo mundo teve/tem a oportunidade de sentir o Escambo, vamos tentar descrever o indescritível para quem sabe assim outras pessoas também possam senti-lo.

Infelizmente, Não foi possível participarmos de todas as vivências do escambo. Mas do que foi possível, podemos afirmar que é um mundo de pessoas felizes, que sentem prazer no que fazem e que não poderiam está em outro lugar, senão ali. O que é perceptível em cada depoimento que se ouve, desde os que estão participando pela primeira vez, até os que fundaram o movimento.  É uma felicidade de quem conhece a realidade do Brasil, do Nordeste e das periferias, que sabe que é possível transformar essa realidade. Que seja no drama ou na comedia, consegue plantar uma sementinha de reflexão e esperança em um mundo melhor e igualitário. Uma felicidade de quem sabe que é um agente transformador da sociedade.

O que vimos em um dia, gostaríamos de vê todos os dias: Gente que se permiti. Que se toca. Que se abraça. Que se aconchega. Que faz isso com qualquer pessoa que esteja ao seu alcance, independente de conhecer ou não. Coisa que no dia-a-dia não nos permitimos fazer nem com quem conhecemos, sabemos o nome, time do coração, preferencia de bebida, coisa e tal.

Imagine como o mundo seria um lugar melhor se ele fosse um Escambo Popular de Rua?

Que coisa linda é o sentir, mas, ainda mais bonito é quem se permite a isso. Incrível vê tanta sensibilidade junta, tanta sensibilidade por metro quadrado. Que bom seria se todas as pessoas se permitissem a conhecer, a sentir o que sentimos, seria um choque de realidade para muita gente. Foi um choque de realidade para nós, Bárbara e Michely.

Em muitos momentos nos emocionamos. Ouvir o grito da fome nos machucou muito. Doeu. Assistirmos o impacto de uma sociedade machista e o quanto nós mulheres somos violentadas diariamente, nos machucou muito. Doeu. Vê que não somos donas do nosso próprio corpo, nos machuca muito. Dói.  Mas, ouvir todos cantando e seguindo a canção foi mágico.

O Movimento Popular Livre de Rua escancara os problemas de uma sociedade real, que muitos se negam a ver porque vivem trancafiados em seu mundo particular. O Teatro de Rua nos obrigar a vermos o quanto fechamos os olhos para o problema do vizinho. A importância, a realidade, a sensibilidade nos fez acreditar mais nos seres humanos.

O 46º ESCAMBO LIVRE DE RUA nos mostrou que, mais do que simplesmente sentir, é preciso dizer o que se sente. Um cenário que nos incomoda não se transforma sozinho, ele só mudará se a gente falar seja gritando para que se escute ou  sussurrando para que se reflita. O mundo sempre foi, e sempre será, transformados pelos que se incomodam e não ficam calados.

Gratidão aos que se incomodaram com o espaço vazio, gritaram  e sussurram que era preciso enchê-lo de vida. Gratidão por terem transformado aquele espaço e nos permitido vê e sentir vida no ESCAMBO. Foi incrível vermos a transformação das primeiras mãos que se davam até a roda formada por pessoas vivas que cantavam, dançavam, recitavam e deixavam de serem desconhecidas. As vidas que despertaram naquele espaço vazio estavam famintas por trocas de vivência. Até as lombrigas tiveram de gritar para reclamar do vazio no estômago.

Gratidão a todos que nos presentearam com cada espetáculo. Por cada sorriso. Por nos fazer sentir a sensibilidade de todos que participaram. Gratidão a todos que não nos deixam parar a luta – Apesar de toda essa gente alegre e de uma sensibilidade extrema, vimos o quanto ainda o machismo é impregnado na nossa sociedade em várias atitudes que acabam desrespeitando a todas nós. Gratidão a quem nos dá a esperança de que tudo isso pode ser mudado e que a luta vale muito a pena ao ouvir um: “mulher é linda tomando cachaça”. A gente não gosta de ser assediada, mas são elogios assim que nos fazem sentirmos bem, que acima de tudo ou de qualquer coisa, nos fazem sentirmos MULHERES.

Que gente linda e feliz. Ter participado do ESCAMBAR com todos, nos faz querer ter gente com essa energia por perto e o quanto isso é contagiante.  Está perto de gente feliz nos faz felizes. É uma mistura dos mais variados sentidos.

Gratidão a esse movimento lindo por nos dá a certeza que o mundo pode ser melhor e que há muita gente bacana nesse mundo sacana.


P.S.: Pedimos desculpas ao que não foi colocado aqui. A gente sentiu tanto que muitas coisas tornaram-se indescritíveis.


Bárbara Bezerra e Michely Pereira
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9 comentários:

  1. A felicidade de quem vive nesse movimento aumenta quando eclodem textos como esse.

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  2. Parece ser uma experiência única! Que preencham mais espaços por aí!!!

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  3. Jane, é uma experiência singular. Tem que se programar pra vir pra Janduis num dia que tiver Escambo por aqui. Saudades de irmos aos eventos juntas.

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  4. Jane, é uma experiência singular. Tem que se programar pra vir pra Janduis num dia que tiver Escambo por aqui. Saudades de irmos aos eventos juntas.

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  5. Meu sonho é participar desse evento no sítio do GÓIS em Apodi.

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    1. Vivi, se você poder participar, participe! É uma experiência incrível.

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  6. Meu sonho é participar desse evento no sítio do GÓIS em Apodi.

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